sábado, 7 de novembro de 2009

O filhote.

Josefina e Gengis Kahn



10 a.m.:
Um dia apareceu uma gatinha gorda em casa , eu com minha mania besta de dar nomes históricos a bichos que mau participam da minha própria história, dei a ela o nome de Josefina.
Depois de algumas semanas comigo, ela sumiu por dias, até que meu vizinho ligou bravo avisando que a Josefina teve filhos na máquina de lavar dele.
Eram lindos os quatro filhotinhos, que foram se findando de formas variáveis.
Um dia no entanto, minha mãe decidiu dar a gata, depois de sua segunda gravidez. Cruelmente ela colocou a gata , numa caixa de papelão com os filhotes atrás de um restaurante italiano e voltou pra casa.
Josefina volou poucos dias depois, com Nicolai (um de seus filhinhos) a tira colo.
Faz dois anos que os dois moram em casa de forma calma. Josefina adora fazer pose pra fotos, e Nicolai tem começado a sair a noite.


16pm.:
Um dia no entanto, meu irmão chegou em casa e ao dar comida para a Josefina e o Nicolai, percebu que ela não se levantava, a chamou, fez carinho, ao pega-la no colo foi que percebeu que ela não respirava.
Hoje o Nico está sozinho, foi a primeira vez que ele se viu nesse estado, e só, chorava sem parar.

22pm.:
Dei um ursinho sem nome para ele, e desde então ele parou de chorar.

why can´t we be friends.





so it´s been goodbye for two hours now, and this is the point during the night, where i’d scream at you that this is all wrong, that nothing was supposed to be this way. if i thought even just a little part of you didn’t want this, i’d still be thinking of how to say ‘come home’ in every fucking language ever spoken. you see, we weren’t meant to be friends, maybe we weren’t even meant to be in each other’s lives at all, maybe we found each other accidentally and somehow the natural order of things has been shifted just a little bit out of place, because love existed where it shouldn’t have. the facts are this: i don’t know what it is that was supposed to happen here, but i can firmly tell you with all of my heart that we are not supposed to be friends.

http://lungful.tumblr.com/day/2009/07/25

terça-feira, 3 de novembro de 2009

sumiste

meu corpo ardendo vermelho de sol, sentiu a solidão das luzes que não acendiam enquanto a tarde lentamente descia. as horas subiam e a insistencia da casa em permanecer escura, com meu corpo e a febre a arder a insolação recente, me fizeram perceber então que vc não estava presente e já não voltaria.

levantei da cama entre passos tropegos, sem coragem de apertar os interruptores que brilhavam a minha frente e roçavam em meus dedos.

dois capacetes jaziam por sobre a mesa de jantar, mas mesmo assim sabia que havia partido, sem deixar ninguém para acender a luz ou trancar a casa.

Só hoje, sem febre, percebo o presente que nos deu, a ambos. Será sempre jovem na minha lembrança. Em nosso registro interno não constará nenhuma forma de briga ou desavença, e nunca me verá velha e doente. Nunca morrerei para você.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eles

Invadem nossa cama, eles não curam nossa dor. Eles caem do telhado, eles nos amam devagar e não se lavam depois. Eles não trocam a lampada da cozinha, nem verificam o problema de fiação da casa. Eles vem e vão e nós, sempre nós, ficamos iguais, nos mesmos cantos, a senitr seu perfume no corpo quando passam.
Nós choramos, e rimos e cantamos, sem saber se voltarão, e aprendemos a não nos importar com sua fuga ou volta. Já não nos preocupados em rir de suas quedas, apesar de também não conseguir olhar em seus olhos.
A musica continua, o sol nasce, a roupa no varal seca, e com nossas blusas mais surradas acendemos cirgarros no parque e cegamos as estrelas com nosso fogo, sem esperar seus sinais.
Por que o caminho é muito divertido, com ou sem eles em volta.

anjo queimado

eu choro um pouco mais cada vez que você se transfoma. você nunca foi santo, mas nossa infancia doce ainda escondia os caminhos que escolheria tomar.
se se embarassa a outro homem no meio da noite, com saudades de tudo que nós falhamos um dia em ser, parte dessa culpa também é minha. e choro por você, por mim e por nós, por meu orgulho e medo, de que a realidade de hoje, um dia fosse verdade.
queria te abraçar pequeno, correr atrás de você pela casa e te acordar no meio da noite. não queria mais essa realidade inversa, em que me acorda ao chegar a noite, foge bebado pela casa e me abraçasse de forma tão pequena.não queria esperar assustada a próxima má notícia ou contar com um sorriso doente nos lábios, os dias em que não morreu.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

o chão que ela pisa

Sentou a alguns metros de distancia divagando sobre as possíveis combinações atômicas que lhe construíam nesta tarde. Como poderia estar mais bonita hoje do que estava ontem e na fria iminência de estar menos do que amanhã.

A alguns metros de distancia, a idéia de sua beleza que crescia, cortou seu mau humor de maneira terna, como faz uma faca amolada a um pedaço de pão. Sacudiu a cabeça, como a espantar seus fantasmas e pensou, por que afinal ela, com a faca e o queijo na mão, insistia em cortar o dedo?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

dança das cadeiras

faltavam tres minutos para as dez horas da noite quando ela entrou pela primeira vez naquela casa. o ambiente era de festa, pessoas se embebedavam e uma música que depois ela lembraria com saudade, tocava na vitrola de maneira mansa e quase chorosa.
olhou as mais de vinte pessoas esparramadas pela sala e não reparou que, banhadas pela lua de abril que entrava pela janela, estas se mostravam mais interessantes e belas do que realmente eram.
sem saber onde colocar as mãos, sentou-se num lugar que definiria seu futuro próximo. poderia ter escolhido o sofá vermelho de taipa, a rede que cortava um canto da sala, a beira da janela ou até mesmo o chão. mas sentou-se justamente numa cadeira velha de estampa azul, que se encontrava exatamente de frente para quem não deveria.
na hora só conseguiu reparar na rudeza de suas mãos e a maneira como elas se moviam nervosamente sem fazer qualquer sentido. achou seus olhos de peixe morto engraçados e de um negro misterioso, mas não perdeu mais de trinta segundos nessa constatação.
a verdade se revelaria explicita no dia seguinte, quando no meio da multidão, se encontrou procurando a feiura de suas mãos e a tristeza de seus olhos piscinianos.

sábado, 24 de outubro de 2009

de todas as dores

Essa história começa com alguém que não foi amado - como tantas outras histórias contadas antes. Na medida que setembro se anunciava, sua fé se esvaia. Fazia cinco minutos que desentupira seu peito, e ainda não obtivera resposta. Pensou que se tivesse de esperar mais cinco minutos, o caminho da janela ao chão não lhe pareceria tão difícil.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

atestado de óbito.

traz meu maço de cigarros e bota vodca no suco de cajú - que hoje eu preciso chorar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

trinta anos

foi tanto ensaio, que na hora certa, saiu tudo errado. queria era uma segunda chance, mostrar que meus passos sem álcool, são rentes. deixar o tempo te mostrar a cor dos meus olhos e te contar devagar todos os lugares que pisei (entre a lua e o rio da prata). te mostrar minhas cicatrizes e o nome que no meu braço não mais se apaga.
queria saber seu segundo nome, te contar que geralmente não atropelo as coisas. te levar pra tomar sorvete, não cerveja. deitar na areia, te molhar de mar. te ver no parque. foram tantas lembranças atropeladas em uma noite, que os beijos derramados não tiveram a oportunidade de ter gosto de sol.
sem álcool não consigo te dizer as coisas que te disse daquele jeito atropeladas, dessa forma acelerada que não deveria, encerrando em uma noite nossos trinta anos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

tragédia grega

Sinto que sou toda partida por dentro. Algo que deveria andar em linha reta, vai entre tropeços ou preconceitos pelos piores terrenos da existência. E como uma má menina, rio das regras de convivência me perdendo nas minhas vontades, sem condizer com o próximo.

Quem foi você que entrou nos meus sonhos, me mexeu feito fantoche (desrespeitando meus ossos) e largou minhas mãos penduradas por cordas no ar.

Hoje eu me escondo no buraco mais fundo, no canto mais longe, tentando fugir de coisas que não me perseguem.

No dia nublado penso novamente no que sou e no que poderia ter sido. Se fosse sol, se fosse rosa, se fosse inverno, se fosse outra? Não seria , ela não teria razões de existir no corpo que levo hoje.

Se sou alegre é porque tenho mãos grandes, se sou triste é por meus olhos que ardem, e assim por diante dando a cada parte minha culpa de algum erro meu.

Precisava era ler algo tão bonito que aquecesse meu coração, algo que chorasse fraquinho a beleza da vida lá fora. Algo que me devolvesse a vontade ser humano.
Queria contar tudo pra alguém, pagando por seus ouvidos como uma velho faz por suas putas.

Queria que ele me desse respostas e que de lá eu saísse caminhando em nuvens. Mas tenho medo que com meus problemas se vão meus textos também.

Existem pessoas fadadas a transformar o amor em algo belo por seus atos , por sua reciprocidade e delícia de tardes de sol e corpos nus. Outros malditos não trazem em si esse gene, e são obrigados a vagar fazendo de sua falta de amor, algo belo e sujo e triste que faz dessa lacuna um motivo de existir, de não doer tanto sua existência.

Como me intriga essa aproximação de duas pessoas, de históricos e genes e ossos diferentes. Como podem se gostar jurar amor sem se desgrudar até que o fim os acerque? E como posso eu que nunca os tive, lamentar todos os dias acordar sozinha e não dizer bom dia a ninguém ao não ser ao velho surdo que vive na janela da frente? Como posso eu existir todos os dias?

eu preciso dormir

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

gêmeos

paradario

seus olhos eram verdes. os dela mais puxados pro amarelo e os dele mais puxados pra uma cor de azeitona - como fica o mar depois das chuvas.
conheceram-se em idade mais avançada, e de lá jamais se desvencilharam de si mesmos, embora essa proximidade implicasse uma certa distância. dentro dele um pouco dela e dela ele.
quando ela fugiu, ele a seguiu pela noite. se encontravam quando seus corações arpetavam, se espetavam entre tantas confusões, beijos partidos e abraços sem significado, que sempre precisavam se encontrar nas escadas da reserva cultural no meio da noite, para se abraçar e recarregar as energias. faziam promessas, como um dia terem filhos (ela não queria, mas ele precisava).
seus cabelos eram devassos, desvairados sem permitir que qualquer coisas os prendesse. pareciam as vzes que alma tinha subido a cabeça, se comprimindo pelos poros capilares se soltando em forma de pelos indomáveis.
era necessário espairecer, se soltar da caretice que rege o mundo,para isso vazavam em textos complementares, ela era triste e simples, ele era triste e elaborado.
espero pelo próximo abraços, com os dedos ávidos por se perder em seus cabelos.

seus sapatos

era preciso dizer algo. odiou as convenções sociais por um momento e disse um oi sem entusiasmo, que não convenceria ninguém. e todos sabiam de tudo que havia se passado e olhavam fingindo não se importar, curiosos pelo desfecho da história.
se sentou, esperando que fossem embora logo, ele , o frio na barriga e seu silêncio - que não lhe era comum e só se manifestava em sua presença.
ele continuou de pé, ao seu lado, sem se mover ou falar. por que não se despedia para sempre afinal? o odiou por não ir embora, por tem ido embora semanas antes, por não ter voltado, pelos seus encontros casuais e por agora não lhe deixar em paz.
olhou para baixo e vendo seus sapatos, não conteve uma lágrima ao lembrar destes jogados no chão de sua sala.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

um peixe.

passou os dedos magros pela cabeça arrancando sem querer a parte superior desta. entre seus dedos um pedaço de pele como se fosse uma tampa de shampu se alojava sendo observada com espanto pela sua dona. devo sangrar agora, pensou. lembrando seu sangue de correr alucinadamente cabeça a fora.

azules

tenho sonhado constantemente com os azulejos azuis, também com a grande janela de correr que se abre para incontáveis prédios. não sei onde arranjei essa mania de sonhar com obejtos arquitetonicos, não sei se me entende. mas para ser sincera, não me importo muito com suas considerações a meu respeito,portanto deixo-te livre para pensar no que quiseres, inclusive duvidando de meu juízo se te for conveniente.
a questão é que nessa noite eles estavam novamente presentes em meus sonhos. os azulejos azuis.se apresentando de forma calma, o sonho não teve nenhum movimento, nenhuma história ou fantasia. éramos eu, uma blusa larga escrita "I s2 NY", com a qual durmo, os azulejos e um vaso de espadas de São Jorge no chão - eu bebia café. mas você sabe que eu não bebo café.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sobre passado, futuro e a esperança de uma vaga

Quando eu era pequena, minha avó disse que Deus dá duas mãos e algum talento para a maioria dos seres humanos, e que a partir deste, ele consegue sobreviver, trabalhando, casando, tendo filhos com outros novos talentos e por fim morrendo. Levando a consideração dela em conta, sempre olhei para minhas mãos procurando onde se escondia esse meu "algum talento".

Durante a infância fiz aula de piano, violão, natação, basquete e pintura. Desisti de encontrar o talento nos dedos superiores e me dediquei durante uma semana e meia a procurá-lo nos meus pés, e depois de duas ou três aulas de balé, vi que ele também não se escondia entre meus dedos inferiores.

Foi ao entrar na casa da minha avó com três ou quatro livros entre as mãos que percebi que o dom escondido entre meus dedos era o de segurar os livros enquanto eu os lia. Tinha dez anos na época, e decidi que continuaria lendo até que uma profissão como biblioteconomia ou letras me arrastasse à faculdade.

Numa tarde de Sol, quando as listras de luz faziam desenhos no tapete da sala e eu esparramada no chão mudava os canais de TV, me detive numa estação educativa, ouvindo um senhor gordinho dizendo que para ser um bom jornalista é preciso " ler, ler, ler ... sem parar".

Até hoje me arrependo de não ter guardado seu nome, apesar de suspeitar que essas palavras tenham sido proferidas por Paulo Francis, por que foi esse senhor gordinho que moldou meu futuro. Nesse dia, há aproximadamente onze anos, decidi que seria jornalista.

Achei a profissão justa, afinal, mataria dois coelhos com uma cajadada só (seja lá o que isso signifique), fazendo duas das coisas que planejava para o meu futuro: ler e salvar o mundo (ainda não comentei no texto, e isso até me dá uma certa vergonha, mas eu planejava ser um super-herói um dia).

Continuei lendo incessantemente, chegando a uma média, se não recorde, pelo menos ilustre de dois livros por semana, até que o milagre foi feito de maneira natural, sem nenhum mérito próprio.

Estava lendo Fernando Pessoa pela voz de Alberto Caeiro quando minhas mãos soltaram as páginas e pegaram uma caneta (na verdade esse movimento foi feito apenas pela mão direita, a esquerda continua meio ociosa até os dias de hoje).

Comecei a escrever sobre o dia, relatar emoções, o talento foi ficando evidente nas aulas de redação (mais uma vez, não sei se por mérito próprio ou “desmérito” dos demais). Aos poucos, vi que a Dona Guara (também conhecida como minha vó) estava certa, e meu talento realmente se aloja nas mãos — fazendo sua parte enquanto escrevo essas linhas. Agora está nas mãos de vocês fazer com que eu comece a ganhar a vida com ele.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

sobres sintonias, azulejos e corações

"meu coração é uma rádio am que toca músicas de amor de madrugada", disse ela enquanto esperava uma resposta discordante que não lhe jogasse nesse universo que sabia fazer parte, nesse momento não poderia perceber que seus olhos se confundiam com os azulejos da parede da cozinha que se levantava atrás de seu corpo esguio.
lambeu os dedos para que se enchessem dos grãos de açúcar que se espalhavam em volta da xícara de café a sua frente, para então leva-los a boca me olhando fixamente ainda na espera da resposta.
seus olhos passariam por castanho para um observador mais descomprometido com os detalhes, mas eu sabia que eram amarelos. diante da cozinha antiga, projetada antes mesmo do nascimento da menina a minha frente, pensei se anos antes o arquiteto supremo teria feito esse brincadeira para embaralhar meu pensamento nessa manhã de domingo, misturando o tom do azulejo ao de seus olhos me levando a tal estado de lucidez ( ou loucura ) que não conseguia responder seus estímulos verbais.
seu cabelo estava cuidadosamento desalinhado em coque, minha camisa de listras caia sobre seu corpo e suas pernas nuas faziam travessuras por entre a mesa, parecendo ter vida própria sem parar no mesmo lugar.
diante do meu desconforto diante de sua desinibição juvenil, ela arrastou a cadeira, fazendo um barulho ensurdecedor enquanto a perna de ferro se arrastava na porcelana, encaixou seus joelhos entre os meus e abaixou os ouvidos tantando ouvir meu coração.
com sua cabeça em meu peito, durante cinco sgundos, minutos ou anos, senti que seu coração realmente era uma rádio AM, e que no seu universo eu era apenas um chiado, destinado a deixar de existir na próxima estação.
ela levantou a cabeça devagar e a encaixou na minha clavicula pesarosa dizendo : - coração toca música clássica.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

morangos mofados

deixei um vaso folhado na janela, a espera que visse e tomasse alguma atitude a respeito, mesmo que essa fosse chutar os pequenos frutos vermelhos que cresciam entre as folhas no parapeito.
os morangos cresceram e mofaram sem que percebesse sua existência.
sei exatamente o que diria, "morangos são apenas morangos". e esse seria extamente o motivo de uma nova briga. você não enxerga além dos morangos.
para você eles se apresentam apenas de forma, por vezes suculenta, como uma estranha fruta cujas sementes se guardam do lado de fora de sua superfície vermelha.
minha definição mais breve do que são os morangos tem pelo menos 14.327 caracteres, que não lhe despertariam nenhum interesse. se tivesse essas folhas em mãos, as viraria gentilmente, e começaria a desenhar sua superfície lisa.
eu não gosto do tratamento dispensado aos morangos que murcharam a sua ausência, e por isso, entre linhas rabiscadas num papel de pão, te dou adeus. se te perguntarem por que cruelmente o larguei, diga apenas que foi imcompatibilidade de genios, traição ou coisa que o valha. não diga jamais que não gosta de morangos - você pode assustar alguém assim.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Joaquim

Ficou pensando em quanto tempo levaria para dormir em paz. Se virou na cama, ajeitou a cabeça no lado esquerdo do travesseiro, inverteu a pergunta - como fizera com o corpo - e tentou lembrar da última vez que dormira em paz, sem a nuvem de culpa que velava seu sono e chovia sobre seus ombros.
Demorou mais de 45 minutos para adormecer, algo até então inédito para sua história. Joaquim era do tipo que não tinha vergonha de dormir, e o fazia em qualquer local e situação. Como na festa de 15 anos de sua filha.
Laura nunca o perdoaria e Joaquim nunca pediria para ser perdoado.Sua relação parecia um contrato comum de serviço prestado; ele lhe dera o dom de respirar , e ela que fizesse o que bem entendesse com isso. Lhe alimentara quando preciso e até tentara lhe pegar no colo algumas vezes por mera conveniência. Assim como fizera com Julia, fruto de uma união ocasional chamada Vera, que um dia não aceitara seu suborno suplicante por um aborto.
Joaquim vivera a vida como se fosse uma partida de futebol de botão e essa agora lhe cobrava o preço chovendo culpas mau vividas em seus ombros sem deixá-lo dormir.

nem um átomo se quer

não me lembro do que passava na TV na hora em que se deitou ao meu lado. não me lembro também qual foi o momento em que o impensável tomou forma. toda a malícia se transformou em algo belo e ainda assim desumano. o não queria dizer sim, mesmo que esse nunca tenha a chance de ser proferido.
idéias como essa nunca deveriam tomar forma, nunca deveriam se transformar em gestos.
talvez a dúvida nutrida naquele instante não se deva a beleza daqueles corpos, mas sim a distancia que eles deveriam tomar ... e no entanto não tomavam.
Toda dúvida da origem desta dúvida que te persegue não é legítima e não me darei nem um átomo (por mais que queria e quero), enquanto seu desejo venha de vinganças e facilidades expostas a mesa.
seu sorriso, no entanto, ainda me encanta e peço que não pare de sorrir, mesmo que minha resposta hoje seja não, por que a noite é de festa.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

durante a aula



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sábado, 12 de setembro de 2009

agosto

o termometro marcava 26 graus celsius, o relógio as quatro e vinte da tarde e o calendário dizia ser dia doze. ms não era o dia certo. não existe lugar nem hora certos para dizer adeus. ela não sabia, no auge de seus 19 anos, que aquela partida era apenas primeira de muitas.depois pode contatar que os diferentes tons de adeus realmente significam algo - que na despedida pode-se prever a finitude dos encontros. não pensava em deus a tanto tempo, que se assustou ao evocar seu nome aquela tarde. nao gostava das tristezas que maio trazia, nao gostava de seu vento anunciando sua chegada no final do mes de abril, e certamente nao gostava de senti-lo no rosto quando acabava agosto.

olhou de longe, juntou os olhos como se focalizasse algo e pela primeira vez reparou na tatuagem em suas costas. Por que ele estava sem camisa afinal? Ao virar encarou seus olhos, e pela primeira vez reparou que eles eram azuis. "Que azul mais negro", foi seu ultimo pensamento coerente daquela tarde talvez. Não queria fazer nada, mas fazia tanto tempo que nada era feito, que não resistiu. quando a convidou para entrar falou de tantas coisas que ela nem se preocupou em entender. fazia parte dela deixar de lado coisas que requeriam muito esforço. Sentiu a falta de estática no ar que só fim de agosto traz.

ela se via num quarto muito estranho, pobremente decorado, de saudosas paredes azuis.
os lençóis que jaziam no chão lembravam-lhe das roupas de cama da casa de sua avó (não conseguiu evitar uma certa vergonha daqueles lençóis);
ela não queria, mas precisava ir embora.
ele não deixava que ela saisse (e ela não conseguia deixar de pensar que era apenas uma representação)

depois de muito tempo seus braços finalmente se soltaram.
ela temia que nunca mais suas mãos voltassem a se encontrar, mas de uma estranha forma lidava bem com essa possibilidade do destino.
o beijo de despedida não pareceu nem o ensaio do primeiro.
a porta fechou-se atrás dela, que partia, separando talvez para sempre aqueles dois corpos que há instantes atrás estavam tão próximos.
essas situações não tem regras.
no caminho de volta para casa ela lembrava de todos seus defeitos, fazendo uma estranha lista mental que levava a certeza de um insórdido fim solitário (imaginva-se sozinha em uma casa em londres, aos oitenta anos, com apenas um gato de companhia, enquanto fumava seu charuto e ouvia Franz Liszt).
pensava nos defeitos dele também, como desculpa para não se encantar.
como acreditar em suas palavras, se pareciam tão doces e gostosas de se ouvir; e suas promessas tão delicadamente realizáveis?
afinal por que se agarrava a certeza de que ele não se importava ?
espararia sua ligação por apenas um dia, caso não ocorresse, sentiria-se inevitavelmente como merda.


quatro e meia, seia e quarenta e cinco, nove e cinquenta e seis , onze e vinte:
- Alô? é a Carla?
- Não.
Onze cinquenta e oita , onze e cinquenta e nove, meia -noite.
Se sentindo invetavelmente como merda, odiou o vento de maio que entrava pela sua sala durante agosto.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

último romance

Foi depois de seis horas de chuvas ininterruptas que ela percebeu que talvez fosse até divertido se machucar. Quando decidira extirpar-lhe de sua vida, não contava que ele fosse fazer falta. Não contava com a solidão de suas tardes. Pensava apenas que sem ele uma parte dos problemas de sua vida já tormentada sumiria. Mas depois de cinco ou seis dias de abstinência foi que percebeu que não se constituíam somente de atração, mas sim de uma matéria muita engraçada, com ingredientes de amizade, companheirismo e por que não, estupidez. Ia dizer-lhe oi, que sentia sua falta, perguntar do feriado... mas decidiu que não. Sob o signo de touro, suas intenções foram vedadas pela teimosia. Sentiu falta da dor que lhe acometia em todas suas conversas , que terminavam com a invariável certeza de que seu sentimento não era correspondido. Sentiu falta das brigas e de todas as vezes que não conseguira deletá-lo. Agora que o fizera, sentia a dor que sabia que sentiria nesses primeiros dias. Mas sabia que esta também estava fadada a passar, e que ele logo deixaria de ser assunto de bar - lamentou apenas que ele nem soubesse de seu fim.

ambidestro

Lado esquerdo

nunca pensei que entenderia sua fuga. até me sentir na necessidade de fazer o mesmo. nunca entendi a forma que me tratava , até que tratei alguém igual (pensando ser a única saída).
o medo da esperança nos olhos da outra pessoa nos irritam, e nos compelem a sermos pessoas estúpidas (que não somos). sim, eu sou mais parecida com vc do que deveria.
é desumano, frio e inútil, já que somos crescidos e deveríamos ao menos agir como tal.
também perdi amizades, chances e destinos, fazendo o que vc fez. e nada disso tem desculpa, nem mesmo que eu dissesse que nunca mais amaria por causa da dor que vc um dia me fez sentir - nem que dissesse estar agora desacostumada a gostar de alguém.
por que quando agente gosta, o passado fica muito longe e as possibilidades de futuro se apresentam como única forma de salvação.


Lado direito


pensei em estrangular seus olhos verdes quando vi neles o tom de esperança que um dia carreguei. não era possível que me disseste as palavras que queria ouvir de outra pessoa. e para não faze-lo gostar de mim, me tornei alguém que eu um dia odeiei.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

febre

enquanto os dedos molhados queimam minha testa que arde em febre, não deixo de pensar que a culpa não seja sua. o vento da rua vem morno nas minhas costas e as temperaturas se revezam entre reais e imaginárias por causa do calor que toma meu corpo. enquanto o suor involuntário corre pela minha testa em direção desconhecida guiada pela gravidade, deliro te consentindo que me traia, contanto que seja comigo.

domingo, 30 de agosto de 2009

querosene

sua boca tem tantas palavras que você não tem medo de usar
seu coração sempre em chamas, arde, até mesmo quando é em vão
quando te vi acender um cigarro esta noite, fiquei com medo da combinação entre a chama do isqueiro e a quantidade exorbitante de álcool no seu sangue
eu sempre vou longe demais, mas ainda assim, admiro à distância sua capacidade de ir mais longe
você me ensinou a não se importar com opiniões de pessoas que não importam para você
quando estou do seu lado sinto o calor do fogo queimar minha pele
e me coloco confortavelmente a seu lado quando sinto frio
senti as chamas nos seus olhos quando me disse que estava linda de vermelho
tudo em você é vermelho, e só me achou linda porque reconheceu em mim suas cores
cuidado com o álccol, você que é de fogo, para não explodir - e digo isso com o cuidado de alguém que também arde em brasas e se aproxima mais do que deveria

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar;

Se escrevo agora é apenas porque o erro foi todo meu. De tanto me entregar querendo ser sempre sua, acabei por nunca ter sido minha. Esqueci que o amor é um acidente e tentei forçar nossas vidas contra a parede. A vontade que começou mansa como um carinho na orelha, morreu com vontade de lhe dilacerar no meio da noite. Não entendia que havia transformado a hipótese em certeza quando nem a idéia existia. Via sinais invisíveis através de gestos que nunca existiram. Diante da certeza repentina do não e da possibilidade de ir para a praia, juntei o que restava de mim no chão e dos mil pedaços fiz uma nova pessoa. Peguei meu maço de cigarros, meus erros e defeitos e os levei para ver o mar. Antes, no entanto, lhe escrevo este bilhete pedindo perdão por ter gostado muito de você e jurando que isso nunca mais há de se repetir.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

camisa xadrez

enquanto arrumava os cabelos de frente pro espelho naquela manhã de chuva, sabia que estava atrasada, mas não podia ter pressa para ajeitar as madeixas que lhe caiam no rosto - já não estavam em boa situação e esta poderia piorar a qualquer instante- por isso tomou o tempo que pensou ser necessário.
ao puxar de forma pouco delicada uns fios que lhe caiam sobre a testa, foi que percebeu que a situação das unhas não estava muito melhor que a do cabelo. Era naqueles dias uma espécie de desastre ambulante - os quatro anos tendo aula de etiqueta a tarde no colégio de elite onde estudara no interior, não lhe adiantaram de nada, pensou sem grandes lamentações.
ela sabia o motivo do desleixo com o cabelo e das unhas roídas, mas fingia para si mesma que estava tudo sob controle. não estava. fazia dias que não almoçava direito, fumava como nenhuma moça de boa índole ousava fazer, bebia como seu sangue germanico lhe orientava e deitava com quem fosse de seu interesse.
saiu correndo de perto do espelho assustada, e foi trabalhar. naquela noite não aceitou nenhum dos convites que lhe foram feitos.

domingo, 23 de agosto de 2009

de outros carnavais

Ela o amava desde o dia 03 de março de 2006, embora não recordasse a data. Nesse dia - conta ela - foi a primeira vez que se viram, mas ela está redondamente enganada quando compartilha com alguém essa informação. Eles se conhecem desde que nasceram. Ou mais precisamente, ela o conhecia desde que nasceu, ela é ligeiramente mais velha.

Nosso casal nunca esteve realmente perto e nunca foi realmente um casal, seu desejo é daqueles puros, quase angelicais. E apesar de os dois já terem tido outros amantes e terem amado anteriormente de formas muito impuras, esse amor se apresente de uma forma bela e doce, sem maiores ganas de deitar-se.

O amor começou na infancia e dela nunca se desvencilhou, o que estou querendo dizer, caro leitor, é que eles começaram a se planejar desde de tenra idade - sempre separados das grande multidões, teimavam em inventar amigos e sonhar com a parceria ideal para suas atividades nada comuns - e de lá para cá o amor continuou o mesmo.

Quando se viram pela primeira vez, apenas sentiram que encaixaram suas vontades. Ela riu da cara de bobo dele, e achou estranho o jeito como ele a olhava. Ele mal conseguia disfarçar a surpresa de ter encontrado uma garota do tamanho que ela era.

Embora nenhum dos dois seja um mestres na arte da sedução, ao se encontrarem, misteriosamente, a situação piora, eles esquecem de como praticar as pequenas malícias aprendidas ao longo dos anos e acabam por sofrer novamente aquela febre dos mal amados, achando - se amando em vão. Encontram-se somente em datas pré definidas pelo circulo social que convivem, ou então em acasos oportunos.

Na última vez que se viram os assuntos não passaram de meras casualidades , a insegurança é tanta entre ambos, que sem um copo de cerveja, mal conseguem até mesmo conversar, ou ao menos resgatar assuntos antigos .


Não sei o que fazer com esses dois personagens criados, se ele encosta nela, ela estremesse e se afasta , para não deixar sua vontAde explicita, ele percebe apenas o afastamento e passa a evitar o contato. Ela sente que ele foge, ele sente que ela escapa. Amor estranho esse que quanto mais gosta mais parece fugir.

Imagino eles dali vinte anos se encontrando por acaso como sempre, em alguma esquina do mundo. Ele estará vestido de forma austera. Ela terá o enfeite mais inapropriado a seu lado, seu marido. Sim, de tanto esperar ela terá se casado com outro, e não aquele que a fazia sonhar. O amor nunca deixou de existir, nem por um segundo, mas o ruído na história fez com duvidassem da reciprocidade do amor.

Penso que o destino talvez juntaria o casal, mas seria pedir demais que ele o fizesse mais do já tinha feito de juntar-lhes ao acaso durante aproximadamente 4 anos.

sábado, 22 de agosto de 2009

desonra

São de raça persa, cara preta, parecidos um com o outro no tamanho, nas cores, até nos movimentos. Gêmeos, com toda certeza, destinados desde o nascimento à faca do açougueiro. Bom, nada de mais nisso. Há quanto tempo os carneiros não morrem de velhice? Carneiros não são donos de si mesmos, não são donos da própria vida. Existem para ser usados, até a última gota, a carne comida, os ossos moídos e dado às galinhas. Não sobra nada , a não ser talvez a vesícula biliar, que ninguém come. Descartes devia ter pensado nisso. A alma suspensa na bile escura, amarga, escondida.

J. M. Coetzee



hoje vai ter sol, mas pouco importa. o frio estala nos seus ossos.
seus ossos, sozinhos, andam se arrependendo muito ultimamente, não é?
acordaste cansada, sozinha e sem um deus que lhe suporte.
sente o gosto azedo de bebida amanhecida na boca e decide voltar para casa.
na linha vermelha é que lhe ocorre, não tem casa.
queria que alguém lhe abraçasse dizendo que está tudo bem, mas não consegue pensar em ninguém que gostaria que o fizesse.
sente no sangue a triste liberdade daqueles que não tem raízes, que não tem ninguém para quem voltar, ninguém que de por sua falta no meio da noite e a ligue preocupado.
e se importa com isso apenas por convenção, quando percebe que ninguém pode julgar seus pensamentos, ela sorri contente com a solidão que lhe afaga e segue para o quarto alugado onde dorme.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

a canção que chegou

cansei das palavras, te queria sem letras. queria que as vontades tomassem corpo e não ficassem delegadas a um segundo plano de imaginação. queria que se desprendesse de si mesmo, do fundo de onde se atirou por vontade própria - talvez com ajuda de fatores externos, que não lhe pertenciam. queria que não pensasse nas lógicas, nem tivesse medo do que não conhece. eu não quero te machucar , como poderiam mãos de carícias causar dor? a dor só é causada pela distancia.
não pense, porque a vida não é racional, ela não cabe numa tabela cartesiana - e aí mora a graça de viver. nunca mais seremos tão jovens , já não o somos como éramos antes. me tire pra dançar . se a dança não for perfeita, valeu pela graça do samba (eu também não sei sambar). e não me importaria se você de repente escolhesse outra pessoa para conduzir pelas mãos. eu queria apenas te ver dançar. não deixe a música tocar a toa no salão.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

menino de fogo

se arde tanto por causa das inúmeras razões que te queimam, não entendo como uma fagulha do que sente não queima a proximidade do meu ser.

queria que entrasse na minha fogueira ou que me deixasse ao menos me incinerar sozinho ao acaso, nesse incêndio que eu mesmo criei no meu peito - tira as mãos de mim, põe as mãos em mim.

menino de fogo e cabelos de fera, segura um pouco seu peito, deixa que seu coração pule uma batida; pois os olhos da sua menina são de água - deixa pra trás sais e minerais; evaporar.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

desnecessário

o sorriso não vale o esforço que dá aos 76 músculos faciais que o carregam, quando este não é dado com finalidades sinceras. uma meia dúzia de palavras vagamente escritas não devem jamais significar o que não querem que signifique. um abraço, mesmo quando o acaso em que se encontra é tomado de pena ou educação, não deve ser dado quando uma das partes envolve a outra sem levar em conta o coração. jamais diga sim quando não quiser. é desnecessário quebrar um coração.

deixe o samba morrer

girou duas vezes a torneira da direita e tres a da esquerda. colocou os dedos quase sem unha (elas pareciam desaparecer conforme seu nervosismo aumentava ) para sentir apenas que tinha errado novamente a temperatura da água. não se dava com chuveiros que não fossem elétricos.
a própria energia elétrica parecia ter chegado apenas alguns anos antes àquela cidade, que conservava o charme eterno e decadente do começo do século passado.
não se assustaria se visse passando algum calambeque na rua - pensou quando finalmente sentiu uma temperatura agradável de água passando por entre seus dedos.
os azulejos verdes na parede daquele banheiro de Hotel só serviam como prova de confimação da sua tese de que estava presenciando os ultimos momentos de uma sociedade em extinção - seu primeiro sinal claro eram as habitações abandonadas. os azulejos confimavam que alguém há muito anos construiu aquele hotel e não se preocupou em voltar para reformá-lo.
ao encostar a cabeça no canto da banheira foi que parou para pensar na razão de estar naquele momento ali, tão longe de casa e tão perto do passado. lembrou dos olhos claros, daquela cor que nunca vira, lembrou das fotos, de como fugira, apenas para voltar quase um ano depois.
ao chegar esperou pacientemente um, dois, tres dias, mas no quarto quedou sem fe.
no bar, fez do garoto que lhe queria, uma especie de conselheiro sentimental lhe contando seus segredos etilicos. ele tinha belos olhos, mas nao era quem veio encontrar.
- voy llamar a èl - disse soluçando.
-¿ y se el queda com otra chica ahora ? - respondeu pacientemente o rapaz já sem ganas de ter-la.
- entonces me voy morir - respondeu com o romantismo exagerado dos bebados que ouvem tango.
enquanto todos os planos secundários se concretizavam, ela não encontrava ele por acaso, como havia tantas vezes planejado.
nao morreu, no entanto.
descobriu a malha fina da qual são feitos os sonhos e os romances perfeitos - que levam esse nomejustamente por não terem tempo de agonizar, morrendo como fazem os grandes deuses, deixando para sempre um rastro de beleza na memória.
ao compreender isso deixou que ele partisse finalmente.
no dia seguinte partiria ela tambem, e isso nao era ruim, era apenas oque lhe sucederia.
pensou que suas fotos talvez ainda existem em algum lugar, mas que se nao existem nao lhe faria a menor diferenca - nunca teve chances de ve-las.
vendo a textura enrugada de seus dedos devido ao tempo de exposição a água, decidiu que era tempo de sair - afinal, já havia lavado também a alma.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

menino bonito

Não acredite no que falo, porque falo demais e poucas vezes lembro do que disse. Nas histórias fantásticas que te conto, você toma forma de um personagem que já esteve em muitos corpos. Não é seu de verdade, mas gosto que acredite que seja. Gosto que pense no que penso, sem saber da liquidez de minhas certezas. Acho engraçado e gratificante que tenha tanto medo de me machucar sem saber que isso não é mais possível. Vejo você medindo meu coração acreditando que no meu peito existe algum (e tendo a engraçada certeza de que mora nele). Não tenha medo de me machucar, eu não me machuco; não tenha medo de me amar, eu não te amo.
Deixa de besteira, menino bonito, me deixa te contar mais uma história de dormir.

domingo, 2 de agosto de 2009

hoje não.

hoje eu acordei sem fé. acordei como um gesto mecânico, apenas por não ter nada melhor para fazer.
onde estava você quando uma mão estranha me segurava levando meu dinheiro embora e gritando impropérios no meu ouvindo?
onde estava você quando me negaram ajuda e fiquei sozinha tremendo de noite?
foi só mais um assalto que não será computado. será só mais um número que fugiu das estatísticas - fazendo de são paulo um lugar ilusóriamente mais calmo.
espero que ele não tenha dormido, pensando nos olhos de susto de alguém que não tinha culpa de nada.
você estava na minha cabeça o tempo todo, mas agora isso não basta mais.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

scintilla

s.f. Partícula que, incandescida, é projetada ao longe; faísca luminosa: lançar centelhas.
Fig. Rasgo de inteligência, inspiração: centelhas de gênio.
Centelha elétrica, fenômeno luminoso e crepitante, devido a uma descarga súbita e que se produz quando se aproximam dois corpos eletrizados de potenciais diferentes.



queria te dizer que a vida é engraçada , mas eu não te esqueci.
tentarei que as pessoas a minha volta não te esqueçam também.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

revolução

não saberia precisar se a revolução estomacal que sentia era fruto da péssima escolha culinária da noite ou uma soma de todas as mágoas que guardava e que por algum fator externo - o medo da verdade ,talvez - foram postas comprimidas dentro de si.
o fato é que com o estomago embrulhado pusera-se dentro do banheiro e embaixo do chuveiro para ver se o incomodo passava. enquanto a água escorria por seus cabelos e lhe entrava de maneira ardida entre os olhos foi que ela percebeu que não , não passaria.
sentou no chão de azulejos azuis sentindo que explodiria de dentro para fora, ou implodiria, como diriam os mais conhecedores da gramática.
a verdade apertada em seu estomago queria sair. o medo explodiu-se em lágrimas.
levantou-se viu a água escorrendo por seu corpo e não deixou de pensar em quanto tempo ele seria assim, seu , e não apenas um lembrança, até que sua memória se extinguisse por completo, que era sua única certeza e medo.
desligou a água, girando a torneira fosca pela condensação da água.
pensou em deitar-se do jeito que estava, deixando que água secase de seu corpo sem qualquer ajuda externa. mas antes de concluir o raciocínio sentiu um impulso vital jorrando-lhe o tormento para fora. sentiu o gosto amargo tomar conta da boca e durante alguns minutos de movimentos involuntários, sentiu-se a mais desgraçada das criaturas.

de madrugada

Hoje sonhei com vc, fazia tanto tempo que não lembrava da gente , mas hoje sonhei com você; que veio sem aviso e pegou-me pela mão, como costumava fazer antes de ir embora.
seus cabelos agora eram curtos, mas seus olhos eram os mesmos e eu vi neles um tom de arrependimento que só poderia ser encontrado mesmo no meu sonho.
penso que por mais que tente não pensar, algo dentro de mim não te esquece, mas já (há algum tempo) aceita sua partida.
de leve , pela manhã, você foi , assim como se acabou esse sonho, sem conclusões, apenas um vento doce no rosto.
e hoje ao acordar me deparei com a chuva; espero que esteja bem.

terça-feira, 28 de julho de 2009

amor a primeira vista

não te gostava, não te queria e isso se manifestava de maneira estúpida mesmo antes que nascesse.
não te planejara, você fora feita fora de meu consentimento e agora era obrigada a tê-la como parte de minha história.

foi numa noite de inverno que me mandaram para casa da minha/nossa prima, dizendo que só voltariam me pegar quando você nascesse. fiquei bravíssima, mimada que era. como podiam me deixar para trás apenas em detrimento de seu nascimento?
no auge dos meus recém completos sete anos eu tramava maneiras de que você sumisse; optei por joga-la no lixo escondida.

não sei quantos dias se passaram, não sei quanto tempo ao certo te odiei.

lembro daquela tarde de julho quando me avisaram você chegara.
deixei de lado todo meu ódio e sai correndo em direção a porta, dei de cara com você no portão, antes mesmo de que entrasse no colo da mãe em casa.

na primeira vez que te vi senti todo ódio esvaziar-se de mim. e percebi que era amor eterno. hoje faz 14 anos que te vi pela primeira vez, e não deixei de te amar nenhum segundo

sábado, 25 de julho de 2009

Renata

- Oi Mãe...
Não, não estou indo em lugares amontoados de gente, sim evito transporte público, todo lugar que vou é sempre perto, vou a pé.
Sim , lavo as mãos, sim como cebola. Frita ou cozida. Pura?! Não mãe!
Ok ok.
Como estão o Gabriel e a Elisa? Namorando? De novo? Não mãe, eu não tenho ninguém em vista... sim , sim , um dia, quem sabe.
O mundo ? É o mundo vai mal, desconfio que sempre haverão discórdias. Pelo menos assim eu tenho trabalho.
Sim sim.
Por quê estava com saudades, desculpe não ter dado satisfações no últimos três meses, mas hoje a saudade me pegou de jeito, deve ser a chuva lá fora. Sim, estou me agasalhando.
Sim sim, eu sei que ele estaria orgulhoso de mim.
Agente se fala.
Mãe?!

Te amo

TU
TU
TU
TU

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ontém

São tantas tantas tantas letras que eu mesmo escrevi. Não sei como se tornaram tantas, nem lembro o que pensava quando as escrevia. A caligrafia vai mudando com o tempo, mais redonda, mais solta, mais ilegível. As cores, sempre austeras, não variam muito. Ficam entre o preto e o azul – vermelho só em caso de necessidade terminável de escrever. O engraçado é perceber que entre tantos tantos cadernos, feitos em tantos tantos anos, eu percebo que os sonhos são os mesmos, mas que antigamente eu acreditava que eles poderiam se realizar .... antigamente eu era eterno;já diria o Paulo.

terça-feira, 21 de julho de 2009

biografias

Daqui alguns anos escreverão nossas biografias em livros separados por autores divergentes – a ironia se instalará no fato de nossos livros serem publicados pela mesma editora. Eles serão escritos por pesquisadores obcecados por nosso trabalho. Duas mulheres estranhas (como você teria coragem de comer ela?).
Lá pela página 92 você aparecerá em meu livro, como uma curiosidade nutrida por leitores mais amenos – aqueles mesmos que divagam se a Elis pegou ou não o Chico.
Os dois ou três parágrafos dedicados ao nosso insípido relacionamento relâmpago, não revelarão nem um décimo das informações que guardo em sigilo hoje.
Lá pela página 111 do seu livro eu aparecerei de forma de forma sucinta – culpa da escritora (por que tinha que comer ela, afinal?).
Em menos de uma linha serei citada: “Entre os amigos encontrava-se também Sarah Germano, com quem se envolveu por um curto período de tempo”.
Se depender de nós ninguém nunca vai saber dos relâmpagos, da chuva e do choro guardado. Sua fraqueza e minha intolerância não permitem que as páginas dedicadas a nós sejam muitas – não sou Bouvoir, nem você Sartre; e talvez essa seja nossa maior mágoa.

Preciso parar de fazer teorias. É que sua falta entrou na sala hoje.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

conjugação verbal

Eu olhava
Tu passavas
Ele sabia
Nós amamos
Vós sumistes
Eles não dignaram-se a proferir palavra

domingo, 19 de julho de 2009

sobre sofás, spaghettis e cactos




o sol insiste em se mostrar presente por detrás das nuvens cinzas, mas mesmo esse ato de persistencia não faz desse domingo um dia ensolarado. coloquei meu cacto na soleira da janela , na esperança de que um raio de luz faça-o lembrar do deserto e o faça desistir de morrer. sua caminhada acelerada em direção a morte me entristece um pouco, faço de tudo para que viva - mas o tempo paulistano não ajuda.
hoje acordei sozinha, e a primeira vez que conversei com outro ser humano, foi na hora de pagar o pacote de macarrão que comprei no mercado.
- débito ou crédito?
- débito...
Misturei no extrato de tomate um tanto de molho ingles e açúcar , o sabor resultante me rendeu um orgulho extraterreno. minha vó classificaria esse exito culinário como um sinal claro de que já poderia me casar. mas não quero, e dúvido que um casamento se sustentaria apenas com macarronadas. ela sabe disso, e mesmo tendo me ensinado a costurar , cozinhar e cuidar da casa , não nutre a esperança de que isso seja suficiente para que eu me interesse por alguém para sempre.
enquanto costuro um rasgo no sofá - feito há meses de maneira duvidosa - revejo mentalmente as propostas amorosas atuais e quase me entristeço pensando que a única que me interessa é talvez a única que não me queira. o remendo sai tão mal feito quanto o próprio rasgo, dando ao sofá uma aparencia semelhante ao de um braço mal costurado.
sento com o pranto de spaghetti no sofá (mal costurado) de frente para a janela e sinto o Sol aos poucos aumentar. Penso que enquanto eu saiba cozinhar um bom spaghetti não precisarei de ninguém para dividi-lo comigo. Olho de relance o cacto e vejo que ele não morrerá, pelo menos não hoje.

chá mate

quando ela o viu passando com seu passo desordenado e firme, pensou em cumprimentá-lo, e o fez no segundo seguinte - somente para se sentir arrependida da precipitação pelo ato. mas qualquer reflexão era tardia. ele respondeu assustado e veio para perto, como se o balançar das mãos da moça fossem capazes de lhe trazer de volta à superfície da água.
ele a beijou no rosto e sentou a seu lado sem pedir licença. só depois de dar um gole de seu mate perguntou se estava acompanhada. ela ficou sem jeito de dizer que sim, que a solidão era uma parceira constante que ela não se incomodava.
incomodante era na verdade a presença masculina, que quebrava toda lineriedade da noite. ela era obrigada a conversar agora, mais que isso, ela agora media palavras para não parecer boba.
a conversa tomava seu fluxo normal, e invarialvelmente terminava em perguntas sobre seu país natal - ela sabia que sua insistencia era motivo de exaustão, mas não conseguia se familiarizar com nenhum outro assunto que lhes fosse comum.
juntou um pouco de coragem e perguntou ao homem de sotaque estranho na sua frente da onde se conheciam.
- da cidade de Casablanca, em 1942 - respondeu.
E sua resposta foi demasiadamente doce para ser contrariada. foi quando sentiu o esboço do sorriso nascendo que descobriu que nunca mais iria conseguir tomar seu mate sozinha.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

medo

olhou do fundo de seu ódio e percebeu que na verdade era tomada de medo;
ninguém tinha culpa afinal. ninguém nunca tinha culpa, e era isso que mais a amargurava.
queria colocar a culpa em alguém, tirá-la de seus ombros. coube a mim resgatá-la.
tirá-la do fundo de si própria onde havia se atirado lentamente sem perceber.
mas meus braços eram fracos, não conseguia levar a culpa acumulada de anos.
concordei, ainda que contrariada, com sua partida - não havia mais nada para fazer ali. apenas eu, quem sabe. mas eu não era suficiente. limpei seus olhos, beijei sua testa e concordei que fosse embora, empurrando seu corpo em direção a algo que não conhecia.

quando não há mais nada;

Agradeço seu sorriso e peço que guarde suas tesouras;
Tentando aceitar o acaso acabei por amar o transitório.
Talvez a mágica acabe no mesmo momento em que não me calo.
Me desculpo por não ser um retrato sobre sua cômoda , me desculpo pela bagunça que sou e onde me encontro e por não ser - nem de longe – a pessoa que esperava.
Pois tenho voz e falo – e dependendo da cor da tarde até canto-, tenho pés e corro, tenho mãos e te toco. Não gosto de combinar as peças de roupa, não gosto de fingir que não gosto quando gosto, não gosto de ter de me calar quando quero gritar. Não gosto e não faço. Desculpe por insistir quando desiste, desculpe por não conseguir desistir de você, mesmo quando não há mais nada.
Me diz que estou errada, que não preciso pedir desculpa de nada.
Porque o fogo nos meus olhos não aquece suas mãos?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

não pense

"há metafísica bastante em não pensar em nada";

em uma tarde de sábado qualquer, enquanto o calor do sol inexplicavelmente cobria o frio que ventava, duas pessoas jaziam no chão da sala , apenas a se olhar.
eram tão diferente, que algum poeta poderia chamá-los de primavera e inverno estendidos no chão.

ela passava os dedos por entre seus cabelos, fazendo caminhos com as pontas das unhas e pensando quanto tempo isso iria durar.





~tente não pensar em nada por um segundo.
esquece suas ingloriosas tentativas, esquece a textura do seu peito.
não classifique seu coração, não tente amar ou deixar de amar; apenas não tente.
tente se deixar levar por um segundo, como se nada fosse.
como se a tentativa não pudesse talvez te verter em choro.
como se ninguém fosse se machucar.
eu tbm tenho medo, eu tbm não sei gosto, ou porque gosto ou se ao menos deveria gostar.
mas prefiro tentar do que passar os dias como uma morta viva com o coração morto dentro do peito.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

nunca será

Nunca será bom o bastante. A matéria da qual são compostos os sonhos se desfaz na realidade e não empresta sua textura de perfeito aos episódios sonhados quando estes se tornam reais. Pode ser que o tempo passe e leve consigo nossas dores, mas penso que se demorar a passar talvez eu mesmo me leve daqui. Só sei da tristeza quando penso que morrer talvez não seja o pior dos caminhos a seguir.
Talvez eu nunca seja o suficiente, talvez nem vida, nem morte jamais me sejam suficientes. Penso na dor que me provocam as alternativas que se apresentam e penso que talvez seja hora de me apaixonar ... a vida anda tão sem graça.
Quando me encontrar em um quarto escuro enquanto anoitece, não se preocupe em dizer nada, não acenda a luz, apenas sente ao meu lado, por que eu preciso de companhia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Cordilheira

"Os argentinos se reproduzem por osmose, garantiam meus amigos que já tinham passado pela excruciante experiência de tentar seduzir uma argentina. Volta e meia eu trazia essa teoria à mente apenas para tentar afugentar a imagem que me perseguiu durante todo o vôo para Buenos Aires, a de um homem meio narigudo, magro e atlético, com corte de cabelo estilo mullet, a barba por fazer, cheirando a cigarro, sussurrando cafajestadas em castelhano e despindo seu belo casaco de lã imitado de alguma grife nova-iorquina para então montar em cima de mim e meter com força até esporrear o colo do meu útero e então desaparecer da minha vida. Não era nisso que eu queria pensar.

Pelo menos não o tempo todo."

Cordilheira, de Daniel Galera

sexta-feira, 10 de julho de 2009

noite do interior

Virginia abriu os olhos lentamente, e ao notar que faixas de luz não adentravam pelas frestas da porta ou da janela, percebeu que pela septuagésima segunda noite em seguida acordava de madrugada, já sem sono. Olhou o relógio confirmando o palpite de que ainda não teria passado das quatro e meia da manhã.

– 4h20, quase.

Ela sabia que pessoas solitárias não dormiam a noite.
A solidão é uma companhia muito cruel, e se fazia presente em todas as partes, em todo ser redor. Na fila do pão, no cinema, nas livrarias , em casa, no seu quarto, até na cama. Acordava-lhe a noite e não a deixava mais dormir.
Sua solidão era sua melhor companhia.

Maria, Maria

  
Maria, Maria
Nosso filho está perto
Esta noite eu o vi em sonhos
Me chamando
Antes já o pressentia
Esta noite eu o vi de repente, vagamente
Maria, Maria
Maria tenho medo que você não chegue a tempo
Que ele apareça em meu quarto noturno
Com uma faca na mão
E um sorriso violento nos lábios
É preciso impedir que ele cresça longe de nós
E não nos reconheça
Maria, Maria
Não pense que estou louco
Nosso filho já nasceu
E se não tomarmos conhecimento
Como iremos saber
Que a nossa carne que nos mata
Maria, Maria
Tente mesmo chegando
A cabeleira vermelha
Como incêndio mais belo do que nós
Enquanto nós pensamos
Que ainda jaz
Na caixa de sapato
Maria, Maria
Não te iludas com pílulas ou outros métodos
Tarde demais para tais providências
Essa noite, Maria, essa noite ele gritou seu nome
Maria, Maria

     
Anunciação
Caetano Veloso & Rogério Duarte

quarta-feira, 8 de julho de 2009

keep fishing;

a amanhã o dia talvez seja bem longo, e não há nenhuma canção que eu queira cantar.
não quero te encontrar nem falar de você. vou ler meus livros, fumando meu cigarro até que o sol fique manso.
então colocarei meu chapéu novo (aquele que você ainda não viu), calçarei aqules meus tenis velhos (que você odeia) e irei passear pela cidade.
tirarei lilás e amarelo do vento e darei boas risadas de mim mesma.
esse é o meu coração, ele é um bom coração; e já quase nem me importo que tenha rasgado ele.

this is my heart. it is a good heart ;

terça-feira, 30 de junho de 2009

não te culpo

não te culpo por não confiar em mim, nesses dias de muito álcool e pouca fé não sei nem mesmo se eu confio. não te culpo por não estar na sala, pois se eu tivesse essa profana escolha também não estaria sentada ao meu lado neste instante. te culpo, no entanto, por me aflingir com a cruel dor da dúvida, como um veneno que se espalha pelos estranhos caminhos sanguineos, e aos poucos me destrói. não sei se terei tempo suficiente para tirá-lo de mim. como se me furasse com uma agulha, que me penetrasse a pele, te sinto correr pelo meu corpo e evito pensar no dia que se alojará em meu coração. te culpo por um dia te ter, te culpo por quebrar a ordem natural dos átomos, por ter feito uma escolha, por ter entrado numa estrada pela qual não seguiria. penso qual terá sido o sinal enviado que te fez olhar para trás e pensar no passado como um lugar melhor, mais seguro de se estar. por tudo isso te culpo, pelas lágrimas que não consegui verter e pelo coração que não consegui sentir. te culpo por não poder te dizer que te culpo, por não poder te dizer coisa alguma e por não poder nem mesmo te culpar de ser quem sou.

o chão que ela pisa

“eu aqui à tua espera depois do xarope para os intestinos, entre a cápsula para a vesícula das sete e o comprimido para a tensão das oito, sabendo que virás porque não é justo, mesmo aos oitenta e um anos, estar só, porque alguém há-de vir antes de me transportarem para baixo, num caixote mal pregado de gare, a anunciar Frágil no tampo”.

António Lobo Antunes

domingo, 28 de junho de 2009

golpe de estado

ela tinha o cheiro de castidade, e isso o deixava louco. enquanto a rádio trasmitia o golpe de estado naquele pequeno país da américa central, tudo que ele conseguia pensar era em sua saia e o modo como suas pernas se moviam lentamente sem pretensões de incitar quaisquer sentimentos alheios.
logo ele, que se orgulhava de seu status de peão, cavalo sem sentimentos. ele que se orgulhava das mãos ásperas feitas a custa de pegar na enxada desde pequeno. ele que matava cobras e seduzia moças, para depois seduzir cobras e matar moças. justo ele, exatamente ele.
percebeu o segundo que ela deixou o barraco de madeira, onde se reunia a população local para ouvir as novas do golpe,e a seguiu com a sensação de que fora puxado por uma corda que lhe dava a volta no pescoço.
enquanto luiza se dirigia ao riacho para lavar uma muda de roupas ele a seguia a uma distancia segura.


sentiu sua castidade chorosa e viu o sangue tingir as águas do rio. nunca mais teria coragem de olhar em seus olhos cor de azeitona, no entanto.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

defenestrando pretensões

seu coração tem um tom de cinza que me intriga. gostaria de estar mais perto para desvendá-lo, saber o que te levou a não acreditar nas certezs da vida. seus lapsos de romantismo me fazem lembrar de algum poeta que viveu na alemanha há muitos anos atrás e morreu de amor sem acreditar nele. tudo que posso fazer é esperar. gosto de você de uma forma lúcida , sem ganâncias reais de tê-lo. gosto de gostá-lo há distância e gosto de ver passá-lo fingindo que não vejo. gosto de gostá-lo fingindo que não gosto. e gosto da forma como isso se dá, sem pretensões.

sábado, 20 de junho de 2009

fogo fátuo

ao abrir os olhos pela manhã percebeu que eles já estavam molhados, pois bem antes de acordar , no sonho, já estivera chorando.
há exatos seis anos, lembra-se de ter acordado com a mesma sensação, uma paixão indissolúvel no peito e um descontentamento com as pessoas em volta, e após ter lavado o rosto, ter pedido encarecidamente para sua mãe que pudesse ir embora de lá.
seis anos depois as mesmas lágrimas mornas desciam por seu rosto. Decidiu que iria terminar o que havia começado e haveria de partir novamente.
Não penso eu que te encontraria em situação mais adversa.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

coisas belas e sujas

eles eram feios, sujos e ignorantes. mas ela gostava deles mesmo assim. suas roupas eram pretas, e não raro continham manchas das quais não saberiam explicar a procedencia. não trabalhavam, se sustentavam com a ajuda da previdencia social , por causa de um olho ou uma perna perdida em brigas de guange. aqueles que não tiveram a sorte de ser "lapidados" viviam dos negócios mais podres já registrados na experiencia humana, eram eles jogadores, apostadores errantes e traficantes de droga, isso quando havia alguma disponível. não prostituiam-se no entanto, gostavam de dar-se livremente, sem maiores ambições de ganahr dinheiro, para eles isso não se misturava, e não deixo de pensar que esse gesto continha algum resquício de caráter.
ela acompanhava as peripécias do grupo de perto, mas não se dignava a entrar. trabalhava como garçonete o dia inteiro, para poder a noite beber insanamente em sua companhia ouvindo histórias que não tivera coragem de ter vivido.
eram tantas facadas e marcas de sangue , que ela não entendia como viera a fazer parte do grupo. ou como ainda era convidada incessantemente todas as noites para suas farras noturnas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

o problema

meu maior defeito, entre tantos que coleciono, talvez seja acreditar na beleza.
ve-la onde não existe e se deixar levar pelas coisas somente belas.
por detrás do efeito aos olhos e do calor que respinga na alma,é preciso que haja algo que segure o conjunto.
porque ela é tão rápida quanto o momento que se passa.
ela murcha, deixa de ser bela, se arrepende e foge.
nunca dura o suficiente - o quanto realmente deveria ter durado.
mas eu continuo acreditando nela mesmo assim, pois gosto de lembrar da beleza que se foi.
no rosto da minha avó as marcas em sua pele me remetem a fotos antigas guardadas em um album de madeira. ela não gosta mais de tirar foto, pois acha que a beleza já se foi, mas eu a vejo todas as vezes que ela foge da máquina e em todas os sulcos de sua pele - são marcas da beleza adormecida, e talvez por isso não deixem nunca de ser belos.
por isso talvez eu também insista na beleza dos momentos efemeros; os protagonistas da cena já não existem hoje. mas enquanto o espetáculo durou, eles fizeram uma bela performance.

terça-feira, 16 de junho de 2009

grite

preciso de alguém que grite algo muito alto que possa me afastar de meus pensamentos.
grite que não há beleza, que foi tudo criação minha.
no espaço de um grito tavez eu perceba, que nada do que escrevo existe.


Segura coração que ainda não é a hora “perto do osso a carne é mais gostosa, logo mais agente goza”.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

nêmesis

Tem dias que não tem muita razão de existir. Em uma noite bestas dessas, me pus a andar e sentir o vento gelado a cortar meu rosto e se enfiar pelas frestas do meu casaco de lã. Em um apanhado normal de memória, vi que nada do que havia se passado fazia sentido.
Vi que o sorriso esboçado não passava de algum motivo de piada, e que o abraço compartilhado fora apenas formalidade ou pena.
Senti que a decepção fora irreparável, e por alguns minutos velei em silencio a dor de tudo que poderia ter sido e não foi... melhor assim.
Deixa quieta a dor, que ela deixa de ter razão de existir.

domingo, 7 de junho de 2009

ela não gosta mais de você

Não conseguia ver as horas – perdera os óculos no meio dos lençóis ao adormecer por acaso – sabia somente que a noite corria solta. Mais uma vez era despertada pelo barulho agudo do telefone, seria aquela a quarta ou a quinta vez naquela madrugada? Levantei, e ainda emaranhada de sono, sem muita percepção da realidade, tirei-o do gancho.

- Alô? – disse, sem obter resposta.

Eu sabia exatamente quem ligava para minha casa naquele horário, que pude então constatar ser às 4 horas da manhã.

Os móveis espalhados pela sala perdiam suas proporções. O sono atrapalhava meu julgamento e, potencializado pela ausência dos óculos, formava figuras que me remetiam a uma outra realidade qualquer . No caminho de volta para minha cama não perdi a oportunidade de chutar duas ou três mobílias pelo caminho. A dor sentida era apenas mais um agravante para minha noite de sono mal sucedida.

Eles começaram a namorar em uma primavera qualquer, como muitos outros casais de namorados já haviam feito tantas vezes antes. Seu amor, como tantos outros antes, foi esfriando ao longo do tempo, até que um dia, aproximadamente duas primaveras depois de seu começo, chegaram a seu inexorável fim.

Eles formavam um casal bonito,desses vistos somente em filmes hollywoodianos ou em propagandas de pasta de dente. Esbanjavam saúde e não conseguiam esconder a classe social da qual provinham. Mas como a perfeição nunca me convenceu mesmo, a declaração de término não foi recebida por mim com ressalvas.

Ele, no entanto , não admitiu que esse relacionamento acabasse. E, numa saga shakespeariana, fez movimentos que apenas Freud seria capaz de explicar. Perseguiu-a, correu atrás de seus queridos, ameaçou Deus e o mundo. Ela apenas fez que não via, tinha cansado dele. Decidira viver tudo que perdera enquanto esteve trancada nesse amor que não sabia direito como amar.

Na noite de ontem me avisou que sairia para dançar e pediu para que não a esperasse acordada. Fiz meu ritual de todos os dias: banho, jantar, jornal e cama. Mas meu sono não teve seu descanso merecido nessa noite. Enquanto ela dançava, ele aparentemente se afogava em mágoas e culpas, e ligava para tentar tê-la de volta (com certeza cheio de promessas inúteis).

Imaginava-o perdido em um bar de azulejos muito anteriores ao seu próprio nascimento, entre um copo e outro da pinga mais barata , embalado por canções piegas de amores mal amados, assim como o seu. Enquanto ela, embalada por luzes diferentes daquela amarela projetada no bar, contorcia seu corpo no ritmo frenético da pista de dança.

Quando finalmente decidi atender a uma das ligações- que com certeza não me eram endereçadas, mas que nem por isso deixaram de perturbar meu sono – ele desligou na minha cara ao não ouvir o timbre esperado no alô.

Fiz a mesma via-crucis de volta para a cama, mas já iluminada por alguns tíbios raios de Sol, não me deparei com nenhum entreposto indesejável no caminho.

A próxima ligação seria apenas às cinco e meia da manhã, o que já representava um avanço em relação aos espaçamentos anteriores de apenas 5 minutos.

Peguei o telefone com a mesma rispidez das vezes anteriores, como se a culpa do meu mau humor fosse inteira do aparelho instalado na sala.

-Ela não gosta mais de você – disse, e fui dormir em paz.

sábado, 6 de junho de 2009

desnecessário

"se esse decifrar é lento , posso gastar uma vida toda nisso"

sexta-feira, 5 de junho de 2009

frases sublinhadas.

enquanto olhava a vida que passava na janela, pensava que já conhecia muito bem todas as nuances dessa dor que lhe atingia.
sabia da euforia laranja, que aos poucos iria deixando cinza sua lembrança.
não sabia no entanto , porque estaria sempre disposta a estar nessa condição.
sabia de seu fim, não sabia, no entanto, por que tentava relutar em aceitá-lo.
voltou-se para dentro, com o cigarro na mão, perspassou os dedos magros pela sua estante de livros. não pode deixar de pensar em para que ter lido tantas linhas, se para ninguém poderia contar de todas as belas frases sublinhadas.
ao pranto de ella fitzgerald, que tocava em seu rádio e com uma taça de vinho na mão esquerda, pensou em tudo que fora e poderia ter sido para não estar ali.
pensou que seria mais fácil ter se enquadrado em algum de tantos padrões, pensou que ser só fosse uma espécie de castigo por ser tudo aquilo que ninguém costuma ser.
desligou o som. lavou os copos, colocou a garrafa de vinho cuidadosamente ao lado lixo, e dormiu sozinha, como havia feito milhares de vezes antes.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Me miró con tristeza las gotas de lluvia que mi ventana húmeda de despertar para recordar que los días nublados - esta vez no pude evitar una sonrisa proyecto, incluso a las 6 am.
recuerde que cada nube tiene un marco de plata y casi entregó el día de la ira sentída pelo malo tiempo.
Pensé que el diario de peso en las preocupaciones, las pequeñas peleas, falat de dinero - pero por un segundo pensé que debería tomar ventaja de ellos, porque nunca puede tomar de nuevo.
el final todavía está por ser escrito.

olhos negros

não sei se quando olham para mim me veem ou se vão além de onde não sei.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

café

os tenis sujos e mal amarrados contrastavam com o suéter que vestia, mas estranhamante montavam uma figura interessante de ser olhada.
seu cabelo bagunçado , mal amarrado, talvez representasse o desleixo com que cuidava das outras coisas de sua vida.

sentou e acendeu um cigarro como se nada fosse, como se eu não estivesse ali.
eu parado pensava alguma frase de efeito que a impressionasse.
ela sem olhar para mim cortou meu raciocínio dizendo :
- não esperava isso de você.

Eu queria dizer que nem eu. que ela cortara toda e qualuqer espécie de lucidez na minha vida. que eu não existia mais, que ser era dificil depois de sua entrada em minha vida. que não a procurei não porque não quisesse, apenas porque não sabia como.
- nem eu - respondi austeramente.

- Agora é tarde - disse ainda sem dignar-se a olhar-me.
- agora é tarde ... - reproduzi suas palavaras em um eco quase mudo.

Queria toma-la em meus braços, mas pensava que não fossem suficientes, que não mereciam tal imagem entre eles. Tal como os éforos , oráculos gregos amaldiçoados por sua beleza, ela também sofreria eternamente as agruras de ser quem era. De ser bela , de ser forte, de não depender de mim. Viver lhe parecia apenas uma alternativa , uma saída. vivia apenas por não ter nada mehlhor para fazer, e fazia de sua vida algo completamente sem precedentes na história humana. Não sei quando foi que resolveu me encaixar em sua história, sei apenas que não mereci tal entrada.

- o que está pensando ?- indagou ao apagar o cigarro e emaranhar seus olhos aos meus.
- nada - respondi com a mesma tepidez com que me conservava vivo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

longe

Numa tarde de sábado, sigo o rastro de água que seus pés deixam no chão.
E finjo que não percebo os caminhos que faz até que a água se evapore.
Olho para fora, falo algo que não importa realmente.
Crio assunto e não paro de falar, afim de que não perceba que já não tenho o que dizer.

Qual o segredo que esconde nesse rosto velado de dor?
Qual a cor que mais te encanta e qual a nuance que te espanta?
Estudo meticulosamente formas de te fazer sorrir;

Fecho e abro a geladeira, dou voltas pela sala. O Sol nasce e vai embora.
Você não percebe minha presença. Nem sei se percebe onde está.
Queria te levar para longe de você.

fumando espero o dia que a vontade será maior que qualquer medo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

emprestando as palavras #2

(Silêncio)

-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

(Silêncio)

Caio Fernando Abreu

emprestando palavras;

Eres lo que haces, no lo que dices.
Y amarte se quedó a un lado pq no era suficiente,
me da miedo tu miedo,
me preocupa no oírte, no el no tenerte.
Te regalo las pocas sonrisas que me quedan y
las tristes palabras que me inspiran.
Y aún así caminas encima mío,
pisas sin cuidado el calor que aún mantengo.
Y al final la lucha se convierte en pelea,
y las ganas se funden en mi rápido descenso.


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domingo, 24 de maio de 2009

fumando espero o dia que a vontade será maior que qualquer medo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Anempático

Creo que me enamoré. Y lo digo escuchando punk. Fui al teatro a buscar una actriz para un proyecto y me fui con novia. Es más grande pero parece más chica. Yo soy chico y soy chico. Me respondió un mail con un signo de interrogación y fue lo más dulce que recibí en un año. Me parece que ella gusta de mí. La voy a invitar a comer y le voy a decir todo lo que me pasó desde aquella noche. Le voy a decir que soñé con ella y no me quería levantar, pero no como siempre. Le voy a decir que quería seguir soñando. Y después le voy a decir que preferí levantarme porque estoy madurando y quiero que sea real. No, mejor no, mejor lo de lo real no se lo digo.

Esteban Menis